Posted on dez-11-2009
O que se espera de uma trilogia? 2/3
Nova bofetada.
Isso já se estava tornando repetitivo. Resolvi esculhambá-la. Dane-se o universo. Que mudasse de canal. Afinal, nunca pedi audiência. Penteei o cabelo e desabafei.
- Olha, não sei por que entrei aqui, nem por que estou falando com você. Talvez porque tenha
me apaixonado, sim, e talvez isso seja um crime. Um homem solitário tem de seguir o seu caminho e esquecer as causas fúteis da humanidade. Sentar-se em seu apartamento e, quem sabe, acender um cigarro. Mas o tempo corre e nas ruas pessoas se encontram e se despedem. O mundo não gira em torno de si apenas, boneca, mas também em torno do Sol. Posso ficar no apartamento horas, mas um dia o maço de cigarro se acabará e eu terei de sair. Até lá, as flores da primavera continuarão sorrindo para os amantes, mesmo que para mim seja tudo de um mesmo negro escuro. E todos os automóveis, com seus pneus radiais continuarão passando sobre asfaltos oprimidos,mesmo que ninguém pense no ponto de vista do asfalto. E os cientistas continuarão pesquisando as curas para as doenças sem que os vírus tenham direito a advogados. E crianças se divertirão vendo desenhos engraçados onde um personagem sempre se dá mal, mas ninguém pergunta como ele está se sentindo por dentro. A humanidade continuará se preocupando apenas com os glorificados. E os derrotados continuarão esperando a sua vez. “Mas nós estamos na América, boneca, e chegará o dia em que os asfaltos se revoltarão, os cientistas morrerão, o Sol se apagará, o caos se espalhará e as pessoas, moribundas, a beira do fim, correrão para se abrigar em algum lugar, pedindo piedade a algum Deus que elas nem mesmo sabem se existe. O dia em que todas as crianças que torceram pelo desenho errado morrerão por falta de ar, sofrendo como sempre mereceram, e será noite de Natal, e ninguém perceberá. Nesse dia, em que nem mesmo meu apartamento me aceitará, e a chama do cigarro se apagará na baba de minha boca putrefata, nesse dia pensarei em você. E em como desencadeou isso tudo. Mas mesmo assim continuarei te amando, pois do catarro que a rinite me coloca no nariz não conseguirei me livrar. E esse catarro me faz lembrar você. Sim, porque te amo.
Amanda se jogou em meus braços chorando e dizendo nunca ter ouvido uma frase tão bonita. Ao menos uma frase tão longa ela realmente nunca ouvira.
Afastei seu rosto e olhei bem fundo em seus olhos (bem fundo mesmo, para poder atravessar as lentes dos óculos). Meus lábios se tocaram aos dela num longo beijo de língua. Nisso sempre fui bom, afinal tenho muita baba.
Foi como se o todo o universo fosse aquele líquido viscoso que eu pegava da boca daquela mulher. Apertei-a como a um cadarço de sapato. Nunca antes tive tanto amor pelo nojo que sentia daquela língua grossa cheia de aftas. Amanda era tão feia que a cada instante que o beijo se prolongava sentia mais orgulho da minha façanha.
Toda a loja deve estar nos observando – pensei. Abri os olhos rapidamente e vi que ninguém notara nossa existência. Fechei-os e procurei esquecer o pretensioso equívoco.
Propus que saíssemos dali e fôssemos a um lugar mais tranqüilo, quieto, sem barulho e silencioso. Ela assentiu que sim e saímos pela porta para a rua com um destino certo já traçado.
Barmen’s bar.
O lugar era aconchegante e confortável. Sentamo-nos na mesma mesa. Pedi ao Joe que me servisse uma tônica. Ela pediu cachaça. Desconfiei naquele momento que ela bebia. Conversamos muito. A cada palavra de Amanda eu me sentia mais apaixonado. E não só isso, o meu amor aumentava também. Eu sentia como se o destino tivesse unido nossos destinos, e viveríamos juntos para sempre, sem nunca nos separarmos.
Já estávamos lá há duas horas. O hálito de Amanda recendia ao álcool e eu já repensava o meu amor quando aconteceu o inesperado.
Deus, até tremem minhas mãos quando escrevo isto, e tenho a certeza de que quem está lendo esta confissão agora há de duvidar destas palavras, mas posso jurar por todo o que é sagrado como é verdade.
(Continua … não perca a próxima parte)
Da série, o que se espera de uma trilogia?





[...] (Continua … não perca a próxima parte) … veja a segunda parte [...]
Já Falei quero a resposta da 7
Dá para falar ????
Abraços